O Haiti que eu conheci antes do terremoto

16 mar

O que separa o Brasil e o Haiti são apenas cinco mil quilômetros. O país mais pobre do continente americano não é muito diferente do Brasil, seja pelas belezas naturais, seja pelo povo alegre. A população haitiana, mesmo oprimida durante décadas e tendo atualmente 80% das pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, ainda assim sorri. Em 2004, o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide foi deposto e uma guerra civil teve início no país com o surgimento de gangues, que incluíam ex-militares descontentes. Aristide foi exilado na África do Sul. Começava em março daquele ano a Missão de Paz que o Brasil viria a comandar posteriormente, e até hoje, conhecida como Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah, na sigla em inglês).

Criança sorri em Cite Militaire

Soldados brasileiros viram uma oportunidade única de desenvolver sua experiência profissional e de vida, e passaram a se voluntariar para participar da missão. Foi assim que pensou o soldado Valter Francisco de Paula Júnior, 21 anos de idade, que está no Exército Brasileiro há três anos e há três meses na Missão de Paz do Haiti.

Valter faz parte do 11º contingente brasileiro (os comandos são trocados a cada seis meses) e é o único soldado guarulhense dentre os 1.298 que o Exército Brasileiro embarcou ao Haiti nesta leva. O jovem Valter nasceu na Santa Casa da Vila Barros, passou a infância em Inocoop e a adolescência no Cecap. “Só tenho lembranças boas, quem nasceu em Guarulhos sabe que a cidade é especial, grande e acolhedora”. Valter é o filho caçula de seis e foi o único que seguiu a carreira militar como o pai, seu Valter, fez outrora.

O soldado Valter, assim como os outros militares do Batalhão Brasileiro (Brabatt, em inglês Brazilian Battalion), fazem patrulhas pela cidade e o que veem é apenas miséria e nenhuma expectativa de vida naquele país. O Haiti, em quase sua totalidade, não tem saneamento básico, não tem água encanada, não tem energia elétrica (raramente se encontra a termoelétrica), não tem árvores e não tem alimento.

Para comer, a maior parte da população consome o biscoito de barro. Na capital, Porto Príncipe, algumas mulheres misturam um punhado de terra com a água do esgoto, colocam no sol e é disso que se alimentam.

Mulher faz bolinhos de terra

Assim como em São Paulo uma das maiores favelas do País se chama Heliópolis (Cidade do Sol, em grego), a maior favela do Haiti, e já considerada a mais perigosa do mundo, tem o mesmo nome, mas em francês, Cité Soleil (a língua oficial é o francês, mas os haitianos desenvolveram um dialeto próprio, o creole). A miséria ali é evidente, o cheiro forte do lixo acumulado misturado com dejetos produzidos pela população e pelos animais, como porcos, que ali caminham em comunhão.

Soldado brasileiro patrulha visita à Cité Soleil

Para driblar a terrível situação a que foi submetido, o povo haitiano expressa seus sentimentos através da arte, e a maior prova disso são os tap-taps, um tipo de transporte público, pago, totalmente colorido, com desenhos diversos. Até o Ronaldinho Gaúcho pode ser encontrado em um desses automóveis psicodélicos. A religião predominante é a católica, mas grande parte da população pratica o vudu, e convivem com isso naturalmente. O contraste no país é o bairro de Pétion Ville, a parte rica da cidade, repleta de mansões.

Meio de transporte do haitiano, o Tap Tap é sempre um veículo revestido de arte

O Haiti se orgulha em ser a primeira república negra do mundo e o primeiro país latino-americano a alcançar a independência, em 1804. Após uma sucessão de presidentes e imperadores, o Haiti foi dominado por tropas dos Estados Unidos de 1915 a 1934, com o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país. Nas décadas seguintes, o Haiti sofreu nas mãos da ditadura rígida da família Duvalier, com Papa Doc (1957-1971, ano de sua morte) e seu filho Baby Doc (1971-1986). O padre Jean-Bertrand Aristide foi um dos maiores opositores à família Duvalier. Hoje, a situação do Haiti está controlada e as gangues estão desarticuladas pela ação dos militares brasileiros durante os cinco anos da missão.

O pai do soldado guarulhense, seu Valter, emociona-se ao falar do filho, chora e manda um recado: “Sinto um orgulho imenso do trabalho que ele tem realizado, ele preencheu um sonho que já tive, agora me espelho nele”.

Eu e as crianças haitianas na escola

Visita realizada em outubro de 2009, três meses antes do fatídico terremoto de 12 de janeiro

Anúncios

2 Respostas to “O Haiti que eu conheci antes do terremoto”

  1. ajax 16 de outubro de 2011 às 8:00 AM #

    Lendo o artigo, voltei no tempo e lembrei do Haiti antes a e após o terremoto.Estou seguino em breve para a Espanha para fazer o curso de Senior Mision Leader, que habilita os concludntes a exercer funções de chefia da ONU. Quem sabe em 2013 não retornarei para o Haiti.

    • losstones 16 de outubro de 2011 às 11:41 PM #

      Fico feliz em saber das novidades! Que honra para mim o senhor ler e comentar o meu artigo, obrigada!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: