O primeiro show dos Stones na América do Sul

26 ago
 Tatiana Cavalcanti

Do UOL, em São Paulo

27/01/2015 06h00

Há 20 anos, que se completam nesta terça-feira (27), o Brasil parava para assistir ao show inédito que a maior banda de rock do planeta faria no país. Nem a fortíssima chuva que alagava São Paulo e diversas áreas do estádio do Pacaembu era capaz de diminuir a empolgação das cerca de 50 mil pessoas que estavam lá para ver os Rolling Stones naquela noite, a primeira das três daquela edição do extinto festival Hollywood Rock.

“Obrigado por esperar 33 anos”, disse pouco depois de subir ao palco, arranhando português, o vocalista Mick Jagger, então com 51 anos. Em retorno, os fãs gritavam: “Uh, tererê! Uh, tererê!”. Tanta expectativa tinha motivo de sobra. Apelidado pelos brasileiros de “o show do milênio”, aquele era o primeiro na história da banda inglesa na América do Sul, região que não era rota frequente de bandas internacionais na época.

Naquele dia –uma sexta-feira–, no entanto, a tempestade que caía sem parar desde o fim da tarde fez o público sofrer. O palco virou uma piscina, a água caía das torres de luz fazendo cachoeiras, e as tábuas que protegiam o gramado do estádio eram arrancadas e viravam barracas improvisadas pelos fãs, que queriam se proteger daquele tremendo pé-d’água. Nem a Polícia Militar conseguia contê-los.

Nélio Rodrigues

  • Foi angustiante para nós, fãs, ver aquela chuva torrencial desabando no Pacaembu. O receio de ver o show cancelado deixou todo o mundo apreensivo. Se não me falha a memória, houve um longo atraso. Mas os Stones tocaram normalmente, no pique de sempre

    Nélio Rodrigues, escritor

A chuva era tão forte que dezenas de pessoas desistiram e deixaram o Pacaembu antes mesmo de o show começar. A lama tomou conta da pista, os portões tiveram até que ser fechados provisoriamente pela PM, para evitar que alguém se machucasse. Mas, apesar desse clima de tensão que antecedeu o festival, que ainda teria shows do Barão Vermelho, da banda americana Spin Doctors e de Rita Lee (que acabou cancelando a apresentação da primeira noite devido ao temporal), no fim tudo rolou em clima de paz e amor.

“Foi angustiante para nós, fãs, ver aquela chuva torrencial desabando no Pacaembu. O receio de ver o show cancelado deixou todo o mundo apreensivo. Se não me falha a memória, houve um longo atraso. Mas os Stones tocaram normalmente, no pique de sempre”, afirma Nélio Rodrigues, autor dos livros “Os Rolling Stones no Brasil” e “Sexo, Drogas e Rolling Stones”, o último em parceria com o jornalista José Emílio Rondeau.

Paulo Ricardo

  • Junior Lago/UOL

    O primeiro show do Stones que assisti foi o ‘Steel Wheels’, em Miami, a última turnê com Bill Wyman no baixo. Mas no Pacaembu dei um rolê pelos camarins e fiquei impressionado com o número de velas coloridas [espalhadas pelo local]. Aliás, é por isso que a turnê se chamava ‘Voodoo Lounge’. Os caras são, sem dúvida, do candomblé

    Paulo Ricardo

“Que chuva?”, brinca o roqueiro Paulo Ricardo, vocalista e baixista do RPM, que estava na plateia naquela noite. “Era tão emocionante estar ali, que não enxergava mais nada, só os Stones.”

O líder do RPM ainda se lembra de um “rolê” que deu pelo “backstage”: “O primeiro show do Stones que assisti foi o ‘Steel Wheels’, em Miami, a última turnê com Bill Wyman no baixo. Mas no Pacaembu dei um rolê pelos camarins e fiquei impressionado com o número de velas coloridas [espalhadas pelo local]. Aliás, é por isso que a turnê se chamava ‘Voodoo Lounge’. Os caras são, sem dúvida, do candomblé.”

Pedras rolando

A chuva só cessou seis horas depois, no exato momento em que as pedras começaram a rolar. Os Rolling Stones subiram ao palco às 23h15 e só terminaram o show duas horas e 15 minutos depois. Foram 25 músicas, entre elas alguns dos maiores clássicos do rock.

O revolucionário palco criado para a turnê do disco “Voodoo Lounge” (1994/95) tinha dimensões gigantescas, com telão enorme e jogo de luzes. Além disso, uma serpente metálica de 32 metros, que se erguia da lateral do palco sobre o público, anunciava o início do espetáculo cuspindo fogo. É comum ouvir as pessoas que estavam lá dizendo que se lembram até hoje do calor daquelas chamas.

Frejat

  • Daryan Dornelles/Folhapress

    Tentamos até onde deu, só que o som dos instrumentos começou a ficar alterado e a falhar. A tempestade estava calamitosa, foi um desafio. Fomos heroicos naquela noite, tanto que ganhamos o respeito da equipe dos Rolling Stones e do público

    Roberto Frejat

Após alguns segundos, Charlie Watts surgia no palco para ocupar o seu lugar na bateria. Em seguida, apareceram Mick Jagger, vestido com uma calça preta e paletó e camiseta vermelhos, e a lendária dupla de guitarristas Keith Richards e Ronnie Wood. A banda começou então a tocar “Not Fade Away”, clássico que ficou conhecido na voz de Buddy Holly. E, na sequência, emendou o hit “Tumbling Dice”.

No repertório, canções do álbum “Voodoo Lounge” se misturavam a sucessos obrigatórios da banda, como “Satisfaction”, “Honky Tonk Women”, “It´s Only Rock n´ Roll”, “Start Me Up”, “Sympathy for the Devil”, “Midnight Rambler”, “Street Fighting Man” e “Jumpin´Jack Flash”.
“Foi especial e entrou para a história exatamente por terem sido os primeiros shows dos Stones no Brasil. Afinal, estamos falando de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos”, enfatiza o escritor Nélio Rodrigues.

“Barão submarino”

“Foi a melhor turnê dos Rolling Stones, que estavam em plena forma e musicalmente impecáveis. Foi também a primeira vez que vi as pedras rolando e foi emocionante”, relembra o cantor e guitarrista Roberto Frejat, líder do Barão Vermelho, primeira banda a tocar nas três noites do festival.

“Ficamos conhecidos como a maior banda submarina de todos os tempos”, brinca o músico, referindo-se à chuvarada e às fortes rajadas de vento e trovoadas que ele e a banda tiveram que encarar no primeiro dia. O Barão tinha 45 minutos para se apresentar, mas o show só durou meia hora.

“Tentamos até onde deu, só que o som dos instrumentos começou a ficar alterado e a falhar. A tempestade estava calamitosa, foi um desafio. Fomos heroicos naquela noite, tanto que ganhamos o respeito da equipe dos Rolling Stones e do público”, conta Frejat.

Luiz Carlini

  • Taiz Dering/Divulgação

    Foi um dilúvio universal. Era para desistir. Escorria água pelo cotovelo do Frejat enquanto ele segurava a guitarra. Nunca vi algo parecido

    Luiz Carlini, guitarrista

O guitarrista Luiz Carlini (Tutti-Frutti e Camisa de Vênus) conta que assistiu ao show do Barão Vermelho de trás da bateria. “Foi um dilúvio universal. Era para desistir. Escorria água pelo cotovelo do Frejat enquanto ele segurava a guitarra. Nunca vi algo parecido.”

Amigos de longa data, Carlini e Frejat assistiram ao show dos Stones juntos e, no final, tiveram que esperar até as 3h da madrugada para poder ir embora. “Tinha tanta gente saindo do Pacaembu, que preferimos ficar por ali observando a galera e tentando absorver o show que tínhamos acabado de assistir. Quando saímos, a equipe do Barão Vermelho não estava mais lá. Então Frejat e eu pegamos carona numa Kombi de pastel que estava na praça Charles Miller para ir embora”, lembra Carlini.

Depois do Barão Vermelho, Rita Lee subiria ao palco, mas, devido à forte chuva, a cantora teve de cancelar o show daquela noite para não danificar o equipamento, o que provocou até vaias da plateia.

Coube então à banda Spin Doctors abrir para os Stones. Com certo sucesso nos anos 1990 graças à música “Two Princess”, a banda segue na ativa até hoje. Seu último disco “If the River Was Whiskey”, foi lançado em 2013. Na ocasião, porém, o grupo não empolgou o público, que estava mais preocupado em fugir da chuva e queria mesmo era ver Mick Jagger e sua trupe.

Rita Lee e a modelo nua

“Deu certa frustração [cancelar o show], lógico. Mas a estrutura de palco era projetada para proteger o equipamento dos Stones, de mais ninguém. Não tinha como fazer. E, claro, nunca iríamos expor a Rita [Lee] a uma situação ridícula e perigosa, debaixo de chuva torrencial”, afirma o guitarrista Roberto de Carvalho, marido e parceiro musical de Rita Lee.

Mas a roqueira e sua banda não decepcionaram nos concertos dos dias seguintes (28 e 30 de janeiro), no Pacaembu. Na cochia, lateral do palco, um espectador especial via com curiosidade aquela apresentação. “Mick Jagger assistia ao nosso show da mesa de monitoração. Eu olhava para a esquerda, e lá estava ele. Me dava uma certa tensão”, conta Carvalho.

Roberto de Carvalho

  • João Caldas/Folhapress

    Se eles vierem, eu vou assistir, sem dúvidas. Espero que seja mais do mesmo, um super mega show com uma super mega produção. É sempre ótimo, sempre adoro, sempre me reenergiza. Espero que não seja o último. O dia que não existirem mais os Stones, uma parte de muita gente, inclusive de mim, vai deixar de existir

    Roberto de Carvalho, guitarrista e marido de Rita Lee

Na época o show de Rita Lee chamou muita atenção graças à música “Miss Brasil 2000” e à modelo carioca Valéria Mendonça. Linda, alta, de cabelos negros e longos, ela entrava no palco durante a canção trajando apenas tiara e uma capa branca, que ela abria diante da plateia para revelar seu corpo nu. A repercussão foi tanta que chegaram a dizer que ela havia “roubado a cena”, e a modelo virou até destaque de escola de samba no Carnaval daquele ano.

“Valéria já fazia parte do show ‘Marca da Zorra’. Era um tremendo ‘plus’, numa tradição que já vinha de shows anteriores, a miss Brasil pelada. E sempre foi um sucesso. O Mick [Jagger] tentou uma aproximação, mas sei lá por que cargas d’água ela recusou. Ela era exatamente o tipão de mulher que ele tanto gosta”, conta Roberto de Carvalho sobre a modelo. O UOL tentou, sem sucesso, localizá-la. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, após uma temporada vivendo na Europa, Valéria hoje mora no Rio de Janeiro e é uma mulher religiosa.

Será que eles voltam?

Após os shows em São Paulo, os Rolling Stones ainda se apresentaram no Maracanã, no Rio, nos dias 2 e 4 de fevereiro de 95. Voltaram três anos depois às capitais paulista e fluminense com a turnê do álbum “Bridges to Babylon”. Em 2006, se apresentaram em um show gratuito da turnê “Bigger Bang” na praia de Copacabana para a maior plateia já registrada em um show de rock: 1,2 milhão de pessoas, segundo estimativas oficiais.

A expectativa é de que a banda cinquentona volte a tocar no Brasil em novembro deste ano. “Se eles vierem, eu vou assistir, sem dúvidas. Espero que seja mais do mesmo, um super mega show com uma super mega produção. É sempre ótimo, sempre adoro, sempre me reenergiza. Espero que não seja o último. O dia que não existirem mais os Stones, uma parte de muita gente, inclusive de mim, vai deixar de existir”, conclui Roberto de Carvalho.

E eles voltaram. Em fevereiro de 2016. Ainda bem. E arrasaram. Que venham novamente!

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